26 julho, 2016

Transforme Flechas em Flores

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Ninguém é perfeito ou especial porque pratica há anos em alguma religião. Nem o mestre, nem o papa, embora se reconheça neles o "espirito zen" ou "o espirito santo" agindo em suas vidas e suas condutas. Espera-se que sejam melhores, mas essa esperança não deve ser limitadora a ponto de transformá-los em santos ou infalíveis. Não deve nos cegar ou nos impedir de ver suas naturezas, simplesmente humanas. Ainda são seres humanos, com todas as infinitas possibilidades de errar. 

É comum onde moro ouvir criticas a outras religiões. Cuida-se mais da religião do vizinho do que da nossa. Minha mestra dizia que quando se olha mais para o jardim do vizinho é porque o nosso está sendo negligenciado. Então, é comum ouvir: "Olha só o que fulano fez. Isso por que é evangélico. Imagina se não fosse."

Questionar a moralidade ou a ética de alguém por sua religião faria sentido no Talibã ou numa teocracia, onde de fato se é obrigado a viver de acordo com o que o profeta escreveu supostamente inspirado por Deus. Mas numa sociedade laica eu pessoalmente não admito. E não admito que alguém me diga como me comportar por ser budista ou qualquer coisa. Ainda que eu fosse uma mestra. O ser ou não ser é minha prerrogativa. Minha escolha, minha consequência. Eu sei de mim e não preciso que venham me apontar o dedo cheio de arrogância ou de suposições ou de achismos. 

A vida me ensinou que mesmo que se pratique dez mil anos ainda podemos ou estamos sujeitos a sermos as mesmas pessoas que eramos quando começamos a praticar. A mente é muito difícil de ser mudada. Podemos ter a ilusão de que mudamos, mas basta um estresse qualquer, um barraco na rua ou no trabalho, uma provocação que nos faça ferver por dentro e aquele monstro que achávamos estivesse morto, se mostra e mostra todo seu poder destruidor. 

O monstro pode ser o ódio por alguém, pode ser o ciúme de alguém. Pode ser nossa carência e desejo de atenção. Pode ser tantas coisas que não caberiam aqui elencá-las. Mas quando esse monstro prejudica só a nós mesmos é uma coisa, Quando ele prejudica outras pessoas deveríamos tomar uma atitude de buscar ajuda de especialistas. Uma terapia, por exemplo. Não dá para sair por ai fazendo mal aos outros, fazendo-os sofrer, matando sua paz, ou mantando ou induzindo-os a se matar por que achamos que estamos certos, porque não gostamos da pessoa, porque seus comentários são mais interessantes e competem com os meus comentários. Ou porque não gostou de certos comentários feitos a terceiros, quando o terceiro nem se importou. Enfim, deixemos essas paranoias de lado, antes que seja tarde e elas nos levem a consequências mais graves como perdas materiais.

Pois basta um comentário injurioso por ai e nossa paz se perde para sempre. E nesse momento o zen ou budismo, Deus ou Maomé, seja quem for não vão nos salvar das consequências de nossos atos. Se nosso processo de amadurecimento espiritual for forte e verdadeiro, ela nos manterá firmes, fortes e serenos para enfrentar o mal que nos ataca.

Uma vez um praticante disse-me, usando uma metáfora budista que eu havia despertado os exércitos de Maras. E eu disse, lembrando Buda, que as flechas seriam transformadas em flores. 

Naquele momento as flechas me atingiram, me feriram porque eu era mais frágil no Caminho. Agora eu posso devolvê-las como flores perfumadas.