25 dezembro, 2011

O que dizer a um Budista no Natal?





"Você pode dizer "Feliz Natal" para mim.  Você pode dizer "Feliz Ano Novo." Você pode até me desejar um feliz Kwanzaa se você for tão inclinado. Você pode dizer "Boas Festas" para mim se você quiser incluir tudo numa só frase, se você não tiver certeza do que dizer a um budista. O que você disser, eu vou responder dizendo: "Obrigado."  By A. Damassa

01 dezembro, 2011

Os animais meditam a sua maneira.

O jabuti medita no seu casco e quando caminha dá um passo de cada vez, lentamente a meditação andando. A garça medita em pé. Num pé só. Testando o equilíbrio. Eles só estão vivendo suas vidas sem saber. Mais exemplos podem ser encontrados no Zoo ou na natureza livre.

13 novembro, 2011

Meditação e Sabedoria

Cambridge Zen Center. Foto Jeane Dalbo


"Meditação traz sabedoria; a falta de meditação deixa a ignorância. Saiba bem o que lhe conduz para frente e o que lhe prende atrás, e escolha o caminho que o guia à sabedoria."

06 novembro, 2011

Huxley e o Budismo


Huxley prefaciou este livro: Zen and the Psychology of Transformation: The Supreme Doctrine.

Huxley tinha contato com Budismo. Ele aplica de forma mais efetiva princípios do Budismo no livro A Ilha. lembro-me bem do pássaro de A Ilha repetindo sem parar "wake up". Dizem em Admirável Mundo Novo também há traços do Budismo, mas não lembro. Teria que ler outra vez.

21 outubro, 2011

Cada um deve cuidar do seu quintal.

Em outros tempos certas discussões sobre budismo ou zen me deixariam ofendida e eu certamente não resistiria a retrucar. Hoje não fazem nem cócegas. Porque não importam mais. A estabilidade não vê obstáculos nem perda nem ganho. Não importa o que digam se você encontrou sua casa, seu lugar. Os que ainda sentem-se apegados e com energia de fanatismo ficarão enfurecidos, mas os que ultrapassaram esse momento e chegaram na quietude não necessitam mais entrar em nenhum debate ou defesa do budismo ou de qualquer Escola. Basta cuidar do seu quintal e há muito trabalho a ser feito em apenas um quintal. E ele nem sempre estará limpo, em ordem e florido. A todo momento ele será revolto pelas intempéries da impermanenca. Só podemos cuidar do nosso quintal. O quintal do vizinho é de responsabilidade do vizinho.

16 outubro, 2011

O sutra do coração em coreano. Incompreensível, mas com imagens bonitas.


30 setembro, 2011

Siddharta












Per Nørgård - Siddharta.
The Danish National Radio Choir
The Danish National Radio Symphony Orchestra
Jan Latham-Koenig

14 setembro, 2011

Como saber se encontramos nosso Verdadeiro Mestre?





          RB.: - Como se tornar iluminado?

MR.: - Praticando com um mestre, esta é a melhor forma. Um mestre iluminado espalha iluminação.

RB.: - É possível reconhecer a iluminação em um discípulo? Como?

MR.: - É fácil quando o mestre é iluminado. Um mestre iluminado reconhece."


Revista Bodhigaya em entrevista a i.Moryama Rosh


Qdo. encontrei com minha professora havia a alegria do encontro, o respeito, a desconfiança e o medo do engano que mais tarde se transformaram em alegria, confiança e comprometimento.

Não há exatamente uma fórmula para não errar. Errar pode até ser bom para amadurecer.
Há o natural encantamento, o deslumbre, mas esses sentimentos acabam no primeiro lance que desagrade.

Há pessoas que passaram por vários professores até encontrar o que é mais adequado para lidar com seu karma. Há pessoas que passaram por várias tradições antes do budismo e dentro dele até achar aquela que lhe sirva como uma luva, que seja adequada a sua estrutura de mente.

Quem não gosta de silêncio dificilmente se conectará com uma Escola rigidamente silenciosa e quem gosta não se adaptará a uma Escola barulhenta.

Quem não gosta de treinamento militar idem. Quem não gosta de observar a ordem das coisas se perderá no caos de si mesmo.

Eu mesma vim de tradição cristã para o budismo tibetano, theravada, zen soto e fui me encontrar no zen rinzai coreano e ainda não sei se é ai que ficarei pra sempre.

Às vezes encontrar o mestre não basta porque atrás dele vem uma instituição e tem muita gente que não gosta de estar preso a instituições e rótulos, mas cedo ou tarde há que se decidir. mesmo uma comunidade alternativa tem regras e se não tem, certamente não irá sobreviver por muito tempo.

A certeza acaba na próxima dúvida.

07 setembro, 2011

O Zen e a Arte de Faxinar

Eu poderia estar marchando, mas estou faxinando meu apartamento. Certo, eu não estaria marchando, não com a chuva persistente que martela os telhados lá fora. Fosse pela prioridade imediata, eu deveria estar estudando para minha prova de amanhã. Entretanto, meu apartamento estava uma tragédia por conta de sucessivas semanas de cabelos arrancados e embates com meu trabalho de conclusão da especialização, e eu, alérgico a poeira e pó de gato, não poderia protelar mais.
A faxina, antes de obrigação, é uma ferramenta de crescimento pessoal e um prazer. Um dos meus preceitos, utópicos e pessoais, e não necessariamente nesta ordem de prioridade, é reduzir. Trata-se de um aparente intransitivo, mas revela-se, mais de perto, um fértil transitivo. Reduzir é reduzir tudo.
Ao reduzir-se a cacalhada do entorno, deixa-se a porta aberta para a simplicidade e para a eficácia. Desta forma, um apartamento de dois quartos, habitado por um homem solteiro e uma gata cinza-e-branca, pode ser limpo em duas horas de trabalho focado. Duas míseras horas por semana, e isto inclui pequenas reformas. Duas horas a menos de televisão ou distrações bobas. E ainda sobram tantas outras horas para ver os amigos, ler alguns livros, e tocar violão.
Oscar Wilde dizia que “apenas a mente pode curar o corpo, assim como apenas o corpo pode curar a mente”, e estava, como no mais das vezes, certo, o fanfarrão irlandês e genial. Varrer uma calçada é um exercício que se reflete na mente, de onde se “varrem” as folhas secas, a poeira velha e os eventuais lixos que os transeuntes por ali deixam.
O conceito pode se expandir. Organizar o espaço onde se vive é uma função que se transfere quase integralmente para dentro da mente. Reposicionar os livros em uma prateleira corresponde diretamente a reposicionar as idéias dentro da cabeça. A beleza disso é que, podemos manter as idéias, mas, no mínimo, tiraremos a poeira de ao redor e de cima delas.
Acredito que uma pessoa deve ser capaz de cuidar adequadamente de tudo o que possui. Seja um carro, seja uma casa, seja qualquer objeto. Não expandirei este conceito para as relações, pois poderia resvalar facilmente para raposas mimimimi e saint-exupèrys diversos. Poupo minha reputação disso.
Restringir as posses ao que se tem condições de cuidar é uma atitude que nos permite evitar a sanha imposta pela sociedade de consumo. É mais fácil dizer quando temos uma base sólida para a decisão. O tamanho de nossos braços e a capacidade de nossas mãos é uma boa medida para definir o que devemos abraçar.
É utopia, entretanto, e há coisas demais em meu apartamento. Há dezenas de lembranças e papéis de que não sei me desfazer, e muito menos organizar. Porém, a utopia é uma meta, uma direção para a qual caminhar, e não uma sereia em busca da qual enlouquecer. O caminho do meio é perceber-se. “Saber o que quer o coração”, como cita uma amiga minha. Ou o cruel “Conhece-te a ti mesmo”, sentença de Sócrates que nos assombrará pela eternidade confusa de telas coloridas e ícones piscantes.
O chão está quase seco. Demora, pois a umidade do ar está alta. É hora de começar a pensar em passar a cera no piso.

06 setembro, 2011

Retornar a Nossa Natureza

Foto  Dauro Veras


 Pessoas que vêm a centros Zen com frequência estão perturbadas por suas experiências anteriores com religião. O significado original da palavra “religião” é interessante: vem do latim “religare”, que significa “ligar novamente, ligar homem e os deuses”. [...]
O que estamos ligando? Antes de tudo, ligamos nosso ser a ele mesmos— porque até dentro de nós mesmos estamos separados. E nos ligamos aos outros; e, eventualmente, a todas as coisas, sencientes e não sencientes. E ligamos os outros aos outros. Tudo que não estiver ligado é nossa responsabilidade. Mas na maior parte do tempo nossa tarefa é nos ligar ao nosso colega de quarto, ao nosso trabalho, nosso companheiro(a), filho ou amigo, e então nos ligar ao Sri Lanka, ao México, a todas as coisas neste mundo e neste universo.
Ah, isso soa bem! Mas na verdade não vemos com frequência a vida dessa maneira. [...] As pessoas sempre me perguntam: se essa unidade fundamental é o estado real das coisas, por que quase nunca é vista? Não é por falta de dados científicos; conheço muitos físicos que têm o conhecimento intelectual, mas o modo como lidam com a vida não reflete esse conhecimento.
A causa principal da barreira, e o motivo principal porque falhamos em ver aquilo que já é, é nosso medo de sermos machucados por aquilo que parece separado de nós. [...] É triste, mas alguns de nós morrem sem ter vivido, porque estamos obcecados em tentar não nos machucar. [...]
Se realmente quisermos ver a unidade fundamental, não apenas uma vez, mas na maior parte do tempo — que é o que a vida religiosa é — nossa prática primária [...] é com a chamada “barreira do pensamento-emoção”. Significa que quando algo parece nos ameaçar, reagimos. No minuto que reagimos, surge uma barreira e nossa visão fica nublada. Como a maioria de nós reage a cada cinco minutos, é óbvio que na maior parte do tempo a vida está nublada para nós. [...] Nossa prática primária é com essa barreira. Sem essa prática, sem compreensão sobre tudo que entra e sai das barreiras que construímos — o que não é fácil — permanecemos escravizados e separados.
[...] mas quando não há sujeito ou objeto, a barreira do pensamento-emoção cai e pela primeira vez podemos ver claramente. Quando podemos ver, sabemos o que fazer. E o que faremos será amor e compaixão. A vida religiosa pode ser vivida.
Enquanto não nos sentirmos abertos e amáveis, nossa prática está ali nos esperando, e já que na maior parte do tempo não nos sentimos abertos e amáveis, devemos praticar meticulosamente. Essa é a vida religiosa; isso é que é “religião” — embora não precisemos usar tais palavras. É a reconciliação das pessoas e seus conceitos separados, a reconciliação de nossos pontos de vista sobre como deve ser, como as pessoas devem ser, a reconciliação com nossos medos. A reconciliação de tudo que é experiência… de quê? De Deus? Daquilo que simplesmente é? A vida religiosa é um processo de reconciliação, segundo a segundo.
E cada vez que atravessamos essa barreira algo muda dentro de nós. Com o tempo nos tornamos menos separados. E isso não é fácil, porque queremos nos agarrar ao que é familiar: ser separado, ser superior ou inferior, ser “alguém” na relação com o mundo. Uma das marcas da prática séria é estar alerta e reconhecer quando a separação está ocorrendo. No minuto em que surgir a ideia — mesmo que só de passagem — de julgar outra pessoa, a luz vermelha da prática deve acender.
Todos fazemos algumas ações danosas de que não temos consciência. Mas quanto mais praticarmos, mais veremos aquilo que antes não podíamos ver. Isso não significa que iremos ver tudo — sempre há algo que não podemos ver. E isso não é bom nem ruim; é apenas a natureza das coisas.
Então prática não é só vir a retiros ou meditar toda manhã. Isso é importante, mas não suficiente. A força de nossa prática, e a habilidade de comunicá-la aos outros, depende de sermos nós mesmos. Não precisamos tentar ensinar os outros. Não precisamos dizer uma única palavra. Se nossa prática for forte ela se mostra o tempo todo. Não precisamos falar sobre o Dharma; o Dharma é simplesmente aquilo que somos.
Charlotte Joko Beck
“Everyday Zen”, VII

02 setembro, 2011

Cultive a Renúncia

Abrir mão de algo pode parecer infundado para muita gente considerando que não somos ensinados a abrir mão e sim a fechar a mão. Somos ensinados não a dar mas a nos omitir de dar. Ou a pedir.

A renúncia é muito mais que um ato de desapego. É aprender a viver sem preferências. O que lhe for dado é o bastante, o suficiente. Se vc. quer mais vá atrás de mais e se vc. conquistar muito mais do que precisa saiba deixar diamantes no caminho por onde passa. Mas mesmo sem ter preferências vc. pode ter diamantes para distribuir.

Vc. pode renunciar a muitas coisas: bens, sexo, vaidade, etc, mas isso é apenas a casca (exterior) da renuncia. Abrir mão é mais singelo e profundo que ter e ser. É não querer mesmo podendo ter. É dizer não ao seu carma pré-determinado ao invés de apenas aceitá-lo passivamente.

Tem gente que renuncia a própria satisfação em favor de alguém. geralmente nossas avós e mães se anularam para servir a casa, a família e o marido. Se isso é feito por amor e compaixão, ok, mas se é feito com insatisfação esse sentimento aparece o tempo todo como uma cobrança diária de um débito que pelos serviços prestados, geralmente não reconhecidos. Causam sofrimento a si e a quem está em débito. O melhor é esquecer o débito e viver sem amarras.

Quem não tem preferências não se importa em demasia com a pouca ou nenhuma consideração que os outros lhe dão. Apenas percebe e deixa que as coisas se diluam de sua mente. E assim consegue viver de maneira saudável. Viver de maneira saudável é deixar os eventos cotidianos passarem por sua mente como a areia passa entre os dedos abertos. Apenas percebendo os enventos da vida sem agarrar-se a eles.

01 setembro, 2011

Professor e o Sino.


Um novo estudante aproximou-se do mestre Zen e perguntou-lhe como ele poderia absorver seus ensinamentos de forma correta.

Pense em mim como um sino,” o mestre explicou. “Me dê um suave toque, e eu irei lhe dar um pequeno tinido. Toque-me com força e você receberá um alto e profundo badalo.”

23 agosto, 2011

Apagar o Apego.

Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet)
Se vc. só viu Jim Carrey fazendo as  macaquices de sempre deveria vê-lo fazendo outros personagens "normais". Fazendo dramas. Ele é muito melhor ator nesses filmes. Em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, infelizmente ele não convence, mas tem outros que está bem melhor. O filme é bom porque o tema, apesar de ser recorrente, é mostrado de outra perspectiva. Aqui se introduz uma técnica de apagamento de memórias dolorosas. A priori ninguém precisaria mais sofrer perdas, ou fins de relacionamentos. Bastaria pagar pelo serviço de apagamento das lembranças ligadas a situações que causam sofrimento. O filme prova que isso não funciona se o apagamento acontecer apenas com um dos envolvidos no relacionamento. Ambos teriam que passar pelo processo de apagamento. É o que acontece no filme. A moça apaga o cara da sua memória. O cara procura por ela e ela não o conhece. Nem sabe quem é ele. Ele fica desnorteado e acaba descobrindo que ela o apagou. Ele procura o médico para pedir explicações e decide apagar a moça da sua memória, mas enquanto o processo de apagamento está sendo feito acontecem outros eventos a sua volta e ele decide que não quer apagar as lembranças, mas não pode parar o processo porque está dopado. Então, tenta fugir (em sonho) com a moça para lugares onde eles não tenham lembranças juntos que possam ser apagadas. No fim isso se mostra inútil e eles combinam se encontrarem em uma praia. Então, os dois já apagados se encontram novamente no lugar combinado. Teem a impressão de já se conhecerem, mas não sabem de onde e o relacionamento recomeça, mas o fim lhes reserva uma surpresa. Suas memorias apagadas (fitas com o que um disse sobre o outro) e objetos, desenhos, etc, são enviadas por uma funcionária da clínica pelo correio.

Seria interessante se fosse possível apagar lembranças, mas como o filme mostra há implicações éticas a serem consideradas. Mas apagar apegos é algo possível sem técnicas de ficção cientifica ou máquinas mirabolantes. A técnica, ainda que lenda, mais eficaz que conheço chama-se: Meditação Zen.



12 agosto, 2011

Jack: O Buda dos Andarilhos.

Nesses dias de viagem li outro livro do Jack Kerouac. No início me empolguei com a possibilidade de Jack ter reescrito a história de Buda em; Despertar: Uma Vida de Buda. Há muitos livros sobre a vida de Buda. Cheguei a imaginar que Jack se pôs no lugar de Buda para escrever falas que ele poderia ter dito, mas depois de algumas páginas parece que o próprio Jack desiste de ser original e passa a transcrever discursos (sutras) do Buda a rodo. Já li os Sutras, muitos e quando os lia me eram inspiradores, mas ao mesmo tempo sentia que me puxavam para um terreno de apego, de "Isso não pode", "Buda disse..". Foi bom ter lido os Sutras, mas elas pertencem a um tempo que não tem mais muito a ver conosco e foram proferidos para uma audiência que precisava daqueles ensinamentos tal qual foram dados. Não me refiro a todos os Sutras, mas aqueles mais repetitivos e simples. Há Sutras bem difíceis e com ensinamentos que não chegamos a compreender.

Talvez  Jack tenha sido influenciado pelo Sidarta de Hermann Hesse. Desse também não gostei. Talvez ler esses livros que tentam romancear a vida de Buda não nos ajuda em nada e corremos o risco de acreditar que essas ficções são de fato sobre a vida de Buda, mas são só uma história como qualquer outra. A verdadeira história do Buda ninguém, de fato, saberia contar com precisão.

E Jack parece um tanto apegado ao escrever esse livro. Ele diz que foi escolhido para escrevê-lo. Como uma missão. Ok, talvez, naquele tempo poucas pessoas tivessem acesso aos Sutras, mas hoje soa coisa de quem não tem o que fazer.

Todavia, apesar de ter escrito ou compilado a vida do Buda dos Sutras, Jack não era budista. Apesar de ter muitos amigos zen budistas, ele parece ter usado os ensinamentos para justificar seu estilo de vida. Da forma que ele interpretava o Darma e ele pode ter se equivocado bastante nesse caminho.
Seu caminho, suas escolhas exerceram grande influência. Muitos andarilhos surgiram depois de ler seus livros. Eu mesma sem ter lido seus livros anteriormente já me considerava uma seguidora de Jack. Sem os excessos de seus seguidores mais fieis.


Há muitos outros livros com nomes atraentes, mas ainda não os li para saber se tem algo a ver com o Budismo. Entre eles:  Vagabundos Iluminados (The Dharma Bums) e Satori em París.






08 agosto, 2011

Aversão às Boas Maneiras.

Foto: Jeane Dalbo.  Montreal,CA.
Essa aversão ao "Bom dia!" é um sinal de que as pessoas não dizem mais bom dia umas as outras. Outro dia disse bom dia ao acaso pra varias pessoas. Uma olhou para mim de atravessado como se perguntasse: "Eu te conheço?" E lá é preciso conhecer-me para dizer "Bom dia!"

Ser mal educado, marrento, pode ser um sinal avesso de liberdade. "Faço o que quero e quando quero", mas não é legal. Não é uma escolha de quem vive em sociedade. Quem faz o que quer deveria ser eremita e não viver na cidade entre pessoas.

Já falei aqui de como somos pegos de surpresa ao ir à França, principalmente em Paris, mas não só lá, porque os franceses fazem questão de cumprimentos. Eles não esqueceram. Chega a soar doentio para nós que achamos que isso é chato e não precisa. Lá ninguém fala com vc. antes de um bom dia, boa tarde, obrigado, até logo. São os mandamentos da cortesia. Quer ser bem tratado diga "Bom dia!"

Da mesma forma noto a aversão ao "Obrigado" Os pais ficam empurrando obrigado aos filhos e eles parecem sentir-se envergonhados em dizer obrigado. Estão tão cheios de ganhar coisas facilmente sem serem gratos ao que ganham sem esforço algum. Por que dizer "Obrigado?" E mesmo aqueles já adultos teem dificuldade em agradecer. Observo atentamente as pessoas que não agradecem.

23 julho, 2011

A Morte dos Outros é um Exemplo.

A morte não deveria nos abalar tanto. Quanto muito de alguém próximo, mas de alguém que nunca vimos.

A morte dos outros é um exemplo. Uma lembrança constante de que nosso dia também chegará. Talvez esse seja o motivo pelo qual fiquemos tão abalados quando alguém morre.

Fanatismo: A Crença Doentia do Eu Apegado.

As religiões deveriam suavizar nossa barbárie, só que ao contrário tentam nos transformar em fanáticos. E o fanatismo nos leva de volta à fase larval da evolução.

Mas porque o método que leva ao fanatismo é usado? Para obter poder e lucro. Quem usa esse método em nome de um deus, instituição ou religião, está na verdade, manipulando a mente das pessoas para que elas façam o que lhes convém. Seja certo ou errado. Então as pessoas se tornam agressivas, racistas, preconceituosas, homofóbicas, amarram-se em bombas, em nome de um erro de retórica.

O método é usado em todos os lugares. O que seria dos clubes de futebol sem os fanáticos torcedores. São eles que mais compram lembranças do time e vão aos estadios. O que seria dos artistas sem os fâns (abreviatura de fanáticos), são eles que consomem o que é produzido para vender. 

Mais tolos somos nós que acreditamos que alguém pode falar em nome de Deus, Maomé, Buda ou qualquer profeta. Melhor não ter religião do que estar a mercê de chacais desse tipo. Que usam e abusam da psicologia, da fragilidade e do desespero do indivíduo para vender o que está disponível de graça. Crença não é propriedade de ninguém.

Enquanto se espera que o ser humano evolua espiritualmente, essas manifestações, de sectarismo (visão estreita, intolerante ou intransigente), ortodoxia (defesa do status quo), fundamentalismo (crença restrita em dogmas como verdade absoluta, indiscutível), todas levam ao fanatismo.

Nem demasiado humano. Nem demasiado animal.

O fanatismo é uma involução do indivíduo e nos afasta da nossa verdadeira origem.

"Eu tenho muitos tipos de remédio, mas eu não posso levá-los até você."
Buda.

21 julho, 2011

O Zen e as Artes Marciais.

Muitas pessoas praticam artes marciais na Europa, nos Estados Unidos e no Japão sem realmente estarem no caminho do “Budo” ou no caminho do “Zen”. E o sentimento geral é que os princípios e a filosofia do “Zen” não têm nada a ver com a prática das artes marciais como esportes.

Taisen Deshimaru: As pessoas que não querem seguir os ensinamentos do “Zen”, a verdadeira base do “Bushido”, não precisam fazer isso. Elas estão simplesmente usando as artes marciais como diversão; para elas, são esportes como quaisquer outros. Mas, as pessoas que querem viver suas vidas em uma dimensão mais elevada precisam compreender.
Ninguém pode ser obrigado e ninguém pode ser criticado. Uns são como crianças brincando com carros de brinquedo, e os outros dirigem carros de verdade. Eu não tenho nada contra esportes; eles treinam o corpo e desenvolvem a energia e a resistência. Mas, o espírito de competição e a energia que cerca isso não é uma boa coisa, isso reflete uma visão distorcida da vida. A raiz das artes marciais não está nisso.

Os professores são parcialmente responsáveis por essa situação, eles treinam o corpo e ensinam as técnicas, mas não fazem nada pela consciência. E o resultado disso é que seus alunos lutam para vencer, como crianças brincando de guerra. Não existe sabedoria neste ponto de vista e ele é completamente inútil para a organização de suas vidas.

Qual é a utilidade de suas técnicas na vida diária de cada um deles?

Os esportes são apenas diversão e no final, devido ao espírito de competição, eles desgastam o corpo. É por isso que as artes marciais deveriam lutar para recapturar sua dimensão original. No espírito do “Zen” e do “Budo” a luta diária se torna a a vida. Devem existir prêmios a cada momento – ao se levantar pela manhã, ao trabalhar, ao comer, ao ir para a cama. É este o local para a maestria sobre si mesmo.

“Campeonite” é uma doença mental?

Claro que sim! É uma visão estreita da vida! Não quero dizer que uma pessoa nunca deva ser um campeão. Porque não? É uma experiência como qualquer outra. Mas não se deve tornar isso uma obsessão. Também nas artes marciais, a pessoa deve ser “mushotoku”, sem qualquer objetivo ou desejo de obter lucro.

De onde vieram as artes marciais?

A arte da espada, a lança, arco e flecha, ou simplesmente a luta com os punhos – elas são quase tão antigas quanto a própria humanidade, porque o ser humano sempre precisou se defender de ataques e caçar para alimentar a si e a sua tribo. Primeiro, a arma foi inventada – lança, pedra, machado, atiradeira, arco e flechas – e então, gradualmente, por tentativa e erro, as melhores técnicas evoluíram para cada arma. Lutando contra seus inimigos, as pessoas descobriram quais golpes matavam, quais golpes feriam, como bloqueá-los, como contra-atacar, e assim por diante. As armas em si foram aperfeiçoadas, as técnicas foram sistematizadas. E, o todo se tornou uma parte da arte da Guerra e da Caçada. Ambas incluindo outros elementos essenciais: o conhecimento do clima e da temperatura, habilidade de interpretar sinais da natureza (sons, rastros, marcas, cheiros, etc.), a compreensão do meio ambiente e da psicologia do adversário (ou da caça), intuição sobre o movimento certo.
Um bom guerreiro-caçador deve ser capaz de se confundir com o ambiente, se tornar parte dele, conhecê-lo intimamente e respeitá-lo.
Mas, retornando às artes marciais orientais, a técnica de luta sem armas começou a ser importante na época em que os monges viajantes eram frequentemente atacados e roubados, quando não eram mortos, por soldados e bandidos – porque os votos dos monges os impediam de usar armas. Uma forma de luta sem armas foi desenvolvida inicialmente na China, na época de “Bodhidharma”, e depois se dividiu em Karatê, Judô, Tai-Chi e etc…
E, assim estes monges puderam se defender em qualquer ocasião. Esta foi a fonte dos gestos precisos e eficientes do Karate; das sutis pegadas do Judô que utilizam a própria força do adversário; dos ataques lentos, flexíveis, felinos do Tai-Chi: que deram aos monges a capacidade de tirarem vantagem de meios naturais de defesa, adaptados em cada caso para a energia da pessoa. Naqueles tempos, as artes marciais “suaves” não eram divididas em categorias como atualmente, mas eram provavelmente uma coleção de movimentos, golpes, fintas e truques, passadas de um homem para outro no curso de suas jornadas, assim como eles trocavam suas poções e receitas – plantas, massagens especiais, etc…
Ou, suas técnicas de meditação (lembre-se que antes do Buda começar a praticar “zazen” sob sua árvore “bodhi”, ele recebeu instruções de muitos yoguis que encontrou em suas viagens). Eles também compartilharam as experiências que lhes ensinaram lições, morais ou de natureza prática, relevantes para suas vidas.
Os monges viajantes carregaram todos os seus conhecimentos da China para o Japão, aonde, se espalhando a partir da região de Okinawa, eles tiveram um sucesso espetacular. O Karatê e o Judô se tornaram mais populares lá, enquanto que o Tai-Chi permaneceu sendo especificamente Chinês.

O Tai-Chi ainda é praticado atualmente na China,diariamente, nas ruas e fábricas. Eu vi um filme mostrando multidões de pessoas fazendo gestos idênticos como um balé fascinante, em câmera lenta . . .

O Tai-chi costumava ser apenas para mulheres e crianças, pessoas velhas e fracas. É uma prática muito interessante porque ensina a forma correta de respiração (como em “zazen”), junto com o fortalecimento do corpo e a concentração da mente. Ele já foi chamado de “Zen em posição de pé”; mas depois de tudo o que foi dito e feito, é apenas uma dança, um tipo de ginástica sem o verdadeiro espírito do Zen.

 DESHIMARU,Taisen. “O Caminho Zen para as Artes Marciais.”
Tradução Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – RJ)
Revisão Ricardo Martins

15 julho, 2011

Como retribuir a gentileza de quem te prejudica?

Jigme Lingpa disse:


Ser maltratado por inimigos
Catalisa sua meditação;
Críticas ofensivas que você não merece
Estimulam sua prática;
Aqueles que te prejudicam são professores
Desafiando seu apego e aversão;
Como você poderia sequer retribuir a gentileza deles?

14 julho, 2011

O Despertar pode Cumprir-se em Segundos.

"Ser budista é não entender porque isso pode cumprir-me em poucos minutos: Sentir as Quatro Nobres Verdades e o Caminho Óctuplo." J.L Borges In: Siete Noches, p79.

07 julho, 2011

Os Caminhos da Morte são os Caminhos da Vida.



Falo com frequência sobre morte, mas, raramente falo em um tipo de morte que poucos ou quase ninguém gosta de falar: suicídio. Parece que há uma combinação mundial em blindar esse assunto. Alguns dizem que não se pode falar, sobretudo na midia, para não incentivar já que os índices são altos. Nunca ouvi nenhum professor ou mestre falando sobre o assunto. Para quem acha que budistas não se suicidam é bom saber que antes de serem "budistas" (que é um rótulo) budistas também são pessoas e teem os mesmos impulsos e tendências que qualquer outra pessoa e com as quais já nasceram.

De certa forma não há como saber, nem como salvar ou impedir. Quem comete suicídio não manda avisar, sequer dá sinal ou aparenta. É uma das coisas mais difíceis de prever.

Logo se esquece um suicida por que pensa-se que, afinal a opção foi dele, mas ninguém sabe o que realmente se passa na mente da pessoa no momento que o ato acontece. Não há como saber se o próprio indivíduo sabe o que está fazendo.

Já me imaginei várias vezes morrendo por diversas formas. É uma pratica budista que se chama "Preparação para a Morte." Não é da tradição zen budista e nem sei se tem no zen uma prática assim, mas ajuda a ver-se em situações que podem acontecer e experimentar a dor, o sofrimento e o medo. Enfim todas as sensações sobre as quais fantasiamos e que sem o corpo físico cessarão.

A doutrina budista condena,sim, o ato de tirar a vida de outros seres e de si mesmo. Mas aceita o livre arbítrio, o direito da escola, que traz consequências como qualquer escolha. Resta saber se o suicida tem escolha ou se ele apenas repete um padrão que já executou outras vezes e sobre o qual não tem controle. Todavia acredito que em algum momento esse impulso vai cessar e ai há uma chance de o padrão não se repetir mais.

Nós todos convivemos com padrões. Alguns são nossos velhos conhecidos e outros estão soterrados sob montanhas de lixo mental. Não podemos e nem devemos condenar quem se suicida pois não sabemos se nós mesmos não temos esse padrão adormecido em nós. Não podemos julgar ninguém pois nós não nos conhecemos e não sabemos o que pode vir a tona da nossa mente. Deveríamos tomar sim medidas preventivas e vigilância atenta a nossos padrões para poder identificá-los antes que eles submerjam como um jato incontrolável e ai talvez não tenhamos tempo de reverter o processo. Isso não pode ser feito por ninguém a não ser por nós mesmos. Somos nós que temos que estar atentos a nossas ações, reações, impulsos, desejos, pensamentos...E sobretudo não devemos fazer pouco caso ou achar que damos conta de tudo. Quando houver sinal de perigo não tente apagar o fogo sozinho, ou seja, pedir ajuda, não é um ato de fraqueza. É um movimento saudável em favor de si mesmo.

Existem muitos motivos que levam ao suicídio: escapismo da realidade, inadequação ao meio e as pessoas, ao trabalho (o formato social), pressões por, bouling, solidão, vingar-se de alguém que o abandonou, medo de enfrentar situações, doenças mentais como esquizofenia. Portanto há suicidas que planejam minuciosamente sua morte e há aqueles que são arrastados por um impulso que lhes foge ao controle. Todos são dignos de compaixão não importa quais sejam os motivos que os levaram ao ato.

Os caminhos da morte são os mesmos caminhos da vida. Não há como separá-los. Não há caminho mais fácil ou mais difícil. Deixar o caminho da vida é apenas um atalho para começar novamente o caminho interrompido pela morte. A morte não cessa a vida e a vida não cessa a morte.